sábado, 3 de outubro de 2009

“À vida falta uma porta”


É possível entender a morte como uma conseqüência da vida. Um curso tão natural quanto o do rio que deságua numa cachoeira ou no mar, se perdendo a partir daí. Essa passagem compulsória que todos fazemos de um estágio para o outro – um plano superior para a maioria, o nada para uns poucos – é tratada com placidez e a delicadeza inerente aos orientais em A Partida. Não que o filme de Yojiro Takita descarte a catarse que acompanha o dramático ritual de despedida entre os que ficam e os que vão. Ela está lá, claro, mas não se constitui num estorvo, e sim num processo de autoconhecimento e descoberta de sentimentos obscuros, trancados há muito tempo em algum canto de nós. O deparar-se com a morte se torna, enfim, uma espécie de compreensão silenciosa da condição humana, e é legítimo pensar a vida como uma epopéia particular com início, meio e fim.

Mas, então, o que pensar quando a epopéia não se completa? Quando a vida é abruptamente retirada de um corpo ainda em formação e não preparado, portanto, para o fim? Toda a harmonia que poderia existir se pulveriza quando há uma ruptura no curso natural das coisas. Ao ler nos jornais tantos casos de assassinatos, muitos deles envolvendo crianças como o bebê baleado em Osasco, sinto um irreprimível sentimento de vazio, de ignorância em relação à minha condição de ser vivo. Como um improvável Silvio Brito eu grito em silêncio: pare o mundo que eu quero descer. Olho o meu corpo, as mãos que escrevem este texto, as veias sob a tênue camada de pele, os pelos, a respiração, a textura do rosto. Está tudo aqui, mas um dia vai sumir, junto com a minha consciência. Como entender e, principalmente, aceitar isso? Afinal, eu não sou um rio.

Ferreira Gullar já escreveu que “não há soluço maior que despedir-se da vida”. É o nosso choro mudo, nossa revolta derradeira. Gullar diz muito mais. Diz que “à vida falta uma porta” ou que “onde a vida cessou começa o abismo”. Muito mais velho e sábio do que eu, ele tateia da mesma forma no escuro, buscando uma explicação, ínfima que seja, para a tragédia de se extinguir. E – talvez por ignorância ou pela incapacidade de pensar como um oriental – ele também não consegue enxergar beleza na ausência.

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Paulao, tentei ver esse filme no FDS passado, mas o escurinho do cinema passou dos limites, faltou luz! hehehe Só vi uns 15 minutos nem deu pra melar. Vou tentar assistir depois. Abs

Paulo Sales disse...

O filme não é de todo bom, mas tem lá seus belos momentos. Mas na verdade o utilizei aqui apenas como um ponto de partida pra falar de outra coisa, esta bem mais indigesta.
abs