segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Moinhos


Quando se tem uma filha de nove anos, por quem manifestamos uma devoção quase religiosa, fica ainda mais difícil assimilar o clichê de que criamos os filhos para o mundo, e não para nós mesmos. Afinal, ela está devidamente amparada dentro do ninho, dependente de nossas ações e ainda incapaz de ganhar vôo próprio. Sei que isso vai mudar, e que o mundo vai roubar meu pequeno passarinho. E que, tal qual o moinho do verso de Cartola, vai triturar seus sonhos, tão mesquinho. Tentarei estar aqui para acalentá-la quando isso acontecer, mesmo sabendo que o ícone que um dia fui já terá ruído, restando apenas o afeto e a percepção de que sou tão imperfeito e vulnerável quanto qualquer outro ser humano.

Hoje caminhei na praia com minha filha. Enterramos nossos pés na areia e deixamos que a espuma da água do mar passasse por cima deles. Observamos nuvens que se assemelhavam a animais e vimos lá no alto um avião que rumava para o norte. E pensei em Paul Gauguin, que abandonou a mulher com os cinco filhos para desbundar e morrer nos mares do sul, onde se amasiava com nativas de 14 anos e consumia doses cavalares de álcool, enquanto pintava os quadros que o tornariam eterno. Se é esse o preço que se paga pela imortalidade, prefiro despontar para o anonimato. A julgar pelo relato de Mario Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina, que estou lendo, Gauguin sofreu horrores com a morte de sua filha Aline, aos 20 anos, vítima de tuberculose. Mas já estava num caminho sem volta, no qual não cabia a existência de um filho (quanto mais cinco).

Enfim, Gauguin levou ao pé da letra o velho clichê, mas, em vez de criar os filhos para o mundo, apenas os lançou nele, deixando-os ao relento. Até aí não há nenhuma novidade. São muitos os órfãos de pais vivos, que encerram em algum recanto de si mesmos a vergonha do abandono. Como os filhos de alguns descendentes de japoneses que voltam ao Japão, deixando as famílias no Brasil. De início, os pais mandam cartas e dinheiro, que aos poucos vão rareando, rareando, até se tornarem um retrato na parede – mas como dói, como diria Drummond. Curioso que eu tenha lembrado agora do poeta itabirano, que viveu até os 85 anos, mas só conseguiu suportar por 12 dias a perda da única filha, Maria Julieta. Talvez seja esta a mais nítida amostra do amor incondicional de um pai por uma filha: não conseguir viver sem ela.

6 comentários:

Nina disse...

Que belo seu texto, Paulo.

Belo o paralelo entre a arte, a genialidade, e o humano em cada um.

Eu me lembro que quando Drummond morreu, eu, adolescente, sentei-me na calçada e chorei... E nunca esqueci-me da frase: "(...) ela veria ficar para fechar-me os olhos." Na época, eu a entendi como filha, hoje, a entendo como mãe. E dói mais...

Linda sua declaração de amor para sua filha!

Bjo

Paulo Sales disse...

Obrigado, Nina.
Você também sente o que eu sinto, entende o desamparo de viver neste mundo tão mesquinho e amar alguém que precisa ser protegido a qualquer custo. Mas vamos aproveitando os bons momentos.
Beijo

claudina disse...

Porra, amigo...
tá difícil, tenho de dormir, para de escrever bem assim se não não consigo!!!
Quando li seu texto sobre os 17 vizinhos dos 40 senti o quanto meus 40 são melhores, pois neles estão meus filhos com os quais me divirto como se tivesse 9... Eles riem de mim e me dizem que às vezes eu pareço uma criança e eu rio deles e digo-lhes que às vezes eles parecem adultos, e ficamos nos projetando uns nos outros e ajudando-nos a passar pelas inevitáveis frustrações... Só convivo com eles 4 dias por semana, os outros 3 estão com "os outros pais" e confesso que há dias em que a saudade açoita e ligo, e peço penico, e os resgato... Sei que o tempo anda à jato, por isso vou dando meu jeito para cheirá-los ao máximo, antes que o inevitável nos chegue...
Beijos saudosos e sonolentos!!!

Paulo Sales disse...

Espero que você não tenha pesadelos.
Falando sério, acho que perdemos algumas coisas e ganhamos outras. O legal é saber se equilibrar sobre o saldo da balança. Sinto falta da juventude, mas, por outro lado, gosto da vida que levo, e principalmente de poder conviver com minha filha. O resto é ir aproveitando.
Um beijo.

Arlete disse...

Paulo,
Muito linda esta sua declaração de amor. Reúne o amor de todos os pais.

É um texto gentil e generoso com todos que não conseguem deixar fluir assim os sentimentos. Drummond fez foi este fluir de amor..
parabéns pra vc e sua filha...
Ps: Vc não me conhece , tava visitando seu blog.Também sou jornalista.

Paulo Sales disse...

Muito obrigado pela visita e pelo comentário, Arlete. Seja bem-vinda ao blog. O amor por minha filha me inspira: é aquele velho clichê de que nossos filhos são tudo para nós. São mesmo.
Continue aparecendo por aqui.
beijos